Linhas Digitais

FICÇÃO! …Ficção?!

dezembro 1, 2009
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Por Andrey Shevchuk

“Adeus ao corpo”, de 1999, escrito pelo professor de antropologia da Universidade de Estrasburgo, David Le Breton, trata sobre as novas tecnologias e suas relações com o corpo. Entre os temas abordados pelo francês, a discussão a respeito do Pós-Humano:

 Entusiastas das novas tecnologias acreditam piamente que, em um curto período de tempo, o homem será eternizado como máquina. Esses profetas do futuro crêem que a única parte indispensável ao ser humano é seu espírito, e que o corpo nada mais é do que uma carne perecível, com limitadíssimo prazo de validade, e absolutamente descartável. Sendo assim, para que o homem pudesse viver plenamente e eternamente, seria necessária apenas a transferência da sua alma para a internet, onde não existem barreiras entre o querer e o poder.

Uma comunidade virtual norte-americana, os extropianos, se ocupa com essa possibilidade e acredita que, para que isso se torne possível, basta construir um programa de computador com cada neurônio e cada sinapse de um cérebro particular fazendo assim a transferência entre o espírito, com toda sua memória, e o computador, deixando o corpo à deriva [simples, não?]. Alguns vão além, acreditam que, num futuro próximo, o homem tal como conhecemos hoje não será mais que uma simples curiosidade histórica, um ponto perdido numa imensidade de novas formas, um gênero varrido do mundo graças a uma evolução mecânica.

Segundo alguns defensores desse processo, a estrutura física humana tal qual ela é hoje já não suporta mais a gama de informações e conhecimentos produzidos pela sociedade atual. A morte também é considerada a ruína dos esforços do espírito, de tudo que foi adquirido em vida, e que a chegada da era pós-biológica trará fim a esse martírio.

O ciberespaço reuniria essa nova raça que não mais possuiria limites para sua existência. A realidade virtual seria a única realidade. Você poderia lançar-se nas correntezas do rio Verdon, na Provença, surfar nas ondas de um spot no México, caçar leões em uma floresta equatorial, despir a mulher dos seus sonhos num jogo erótico [muito legal, hein].

A principal vantagem que repousa nessa teoria é a inexistência de diferenciação entre os indivíduos. Não existindo mais conexão com o mundo real, pessoas com qualquer deficiência motora poderiam esbanjar da plenitude da vida sem se preocupar com suas limitações físicas. Todos seriam iguais perante o mundo, sem distinção de raça, cor, classe ou sexo. Uma sociedade, finalmente, igualitária.

 

E aí, você acredita que isso é possível? Junte-se a eles: www.extropy.org.


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Sobre abismos e apanhadores

novembro 25, 2009
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Por Mariana Medeiros

O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, é um livro que gera polêmica. Primeiro em 1980, com o assassino de John Lennon afirmando que usou a obra como fonte de inspiração para cometer o crime e, mais recentemente, quando o austríaco Fredrik Colting, foi impedido judicialmente de publicar uma continuação da história com o personagem 60 anos mais velho.

     Discussões à parte, é quase senso comum que a vida de um adolescente norte-americano de classe média alta, quando bem contada, pode ser muito envolvente e até mesmo enternecedora. Nesse caso, a linguagem simplista e cheia de coloquialismos faz toda a diferença. Pela sinopse, o livro parece insosso, quase bobo. A história de um adolescente que, ao ser expulso do colégio devido às notas baixas, foge para New York e passa alguns dias escondido dos pais, porém na mesma cidade em que eles.

     Durante essa fuga, o mundo adulto da luxúria e da embriaguez facilmente se abre para o jovem Holden Calfield e as experiências por ele vividas certamente marcariam a vida de um adolescente comum. Mas Calfield não é exatamente um garoto como os outros. Com uma pureza de espírito e uma aversão ao comodismo e a tudo que se apresenta com vulgaridade de idéias, o desenrolar dos fatos parece natural para o rapaz e tudo que ele quer, realmente, é estar em um campo de centeio, apanhando os meninos que estão caindo em um abismo (daí a justificativa do título do livro, uma alusão a um poema de Robert Burns).

     Nesse ponto, fica claro para o leitor que, na verdade, é o próprio Calfield que se sente caindo em um abismo, não em razão das baixas notas escolares, mas pela maneira com que a sociedade está estruturada, que o jovem considera medíocre e injusta. No entanto, o garoto não se mostra rebelde, tampouco agressivo ou revoltado. Talvez seja exatamente por apresentar um rapaz que é, apesar de tudo, amoroso e sensível, que a obra consiga comover tantas pessoas.

     Uma história singela, pura e bonita, com leitura recomendada para todos, principalmente os mais jovens. 

Notas técnicas

     O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the rye) está na 14° edição, publicado pela Editora do autor. Foi escrito em 1945 por Jerome David Salinger e tem 208 páginas, divididas em 26 capítulos. Atualmente, a obra custa em torno de R$ 50,00.


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Finlândia: ponta de lança na democratização da comunicação?

novembro 20, 2009
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Por Auber Silva

Recentemente o governo finlandês aprovou uma lei que garantirá, para cada cidadão finlandês, o direito de acesso à internet banda larga. Inicialmente, está previsto que em 2010 cada habitante poderá desfrutar de uma conexão gratuita com taxa de transferência de 1mb por segundo. A meta estabelecida pelas autoridades do país escandinavo é ainda mais ambiciosa: em 2015 os 5.5 milhões de finlandeses deverão ter acesso a uma internet banda larga de 100mb por segundo. O objetivo da lei, segundo o Ministério dos Transportes e Comunicações, é promover – com o auxílio da internet rápida – um aumento de produtividade em todas as áreas do país, resultando assim em melhores condições para competição no mercado global. Além disso, os autores do projeto entendem que assim como o direito de expressão, o sui generis “direito de conectividade total” deve ser preservado constitucionalmente para garantir o livre acesso da população à informação.

Em meio aos avanços tresloucados das ferramentas e técnicas de comunicação, esta notícia serve para nos alertar de forma providencial de que precisamos urgentemente pensar, antes das técnicas, o caráter normativo da comunicação. Na onda tecnológica, preocupamo-nos cada vez mais com as novas possibilidades que os equipamentos de última geração nos apresentam a cada semana. Porém, é mais comum discutirmos sobre as configurações técnicas destas ferramentas do que sobre como usar estas ferramentas e, até mesmo, a real necessidade destes produtos.

A resolução finlandesa – de certa forma uma aula sobre visão de futuro – nos leva aos questionamentos levantados pelo sociólogo francês Dominique Wolton. Em seu livro “É preciso salvar a comunicação”, o pensador defende que a comunicação – por ocupar o cerne de todas as relações sociais da vida contemporânea – é um valor tão importante quanto a tríade humanista “liberdade, igualdade e fraternidade” na busca do fortalecimento da democracia. “Salvar a comunicação é antes de tudo preservar sua dimensão humanista: o essencial da comunicação não está do lado das técnicas, dos usos ou dos mercados, mas do lado da capacidade de ligar ferramentas cada vez mais performáticas a valores democráticos, como se viu com o imenso movimento de solidariedade mundial por ocasião do Tsunami de dezembro de 2004 no sudeste asiático”, exemplifica.

A troca de informações, opiniões, visões de mundo e valores culturais é que são essenciais para a construção de um mundo conectado em que as diferenças serão vistas e, principalmente, compreendidas pelo outro. Hoje, conhecemos a pluralidade cultural que habita o nosso planeta. Conhecemos e estamos próximos uns dos outros graças aos avanços das tecnologias de telecomunicações, mas ainda ressentimos de desenvolvimentos no campo social, político e cultural, já que não conseguimos respeitar e coabitar com este “outro”.

Quem sabe este passo pioneiro dado pela Finlândia não nos mostre que o caminho, após desenvolvidas à  excelência as técnicas, seja a valorização do homem como mestre da ferramenta, e não o contrário. Deste modo, talvez a humanidade poderá compreender as suas diferentes faces sem iniciar, vez ou outra, movimentos antropofágicos originados no preconceito e na ignorância – duas palavras inconcebíveis em tempos de profusão da comunicação e encurtamento das distâncias.


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EU JÁ SABIA!

novembro 10, 2009
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Por Oscar Fujiwara

A primeira coisa que fez ao chegar em casa de viagem foi ligar o computador e acessar seu Orkut. Estava louco para postar aquele monte de fotos do litoral nordestino. Praias maravilhosas, muitas amizades e alguns rabos de saia fizeram a sua alegria. Dois memory cards de 1 gigabyte não foram suficientes para registrar todos os momentos daquela aventura de verão, a cada experiência nova eram mais cliques e flashes. Queria guardar as imagens, nem tanto para si, mas para mostrar a todos, principalmente aos amigos, como aquela trip foi alucinante.

Conectou a sua máquina de 12.1 megapixels pela entrada USB e começou a descarregar todo o conteúdo. Trabalho finalizado, iniciava agora a seleção das fotos que iriam compor o seu novo álbum no site de relacionamentos: “Que viagem: Nordestão!”. Não poderiam faltar a aquelas clássicas imagens que tirou de si próprio, de preferência usando óculos escuros e sem camiseta. Achava que ficava sexy daquele jeito, que as meninas iriam perceber o esforço da academia. As legendas também eram essenciais, afinal ninguém iria saber se aquela praia era a de Boa Viagem ou Jericoacoara, Porto de Galinhas ou Trancoso.

As fotos tradicionais da vida noturna também não foram esquecidas. A mesa de bar cheia de caipirinhas, batidas e garrafas de cerveja vazias, rodeada de mulheres aparentemente belíssimas (maquiagem de noite engana), mostrariam como ele é um cara descontraído e baladeiro, além de pegador é claro, apesar de não ter seduzido nenhuma das beldades naquela noite. Melhor deixar que as pessoas imaginassem o que quisesseem.

Não poderia esquecer dos vídeos. Não foi à toa que comprou uma máquina fotográfica com funções de câmera, gravador de voz e webcam. O passeio de bug nas dunas ficou com a gravação perfeita. Que sorte! Quem assistir vai praticamente sentir a brisa quente no rosto e os grãos de areia entrando nos olhos. A noite na qual dançou axé em cima do palco daquela balada tampouco poderia ficar de fora. A galera iria delirar com aquela cena. Depois de ficar quatro horas em frente ao PC  e de postar cinco vídeos e 200 fotos, resolveu dormir. Ainda eram 9 horas da noite, mas seus olhos estavam muito cansados.

No dia seguinte, um sábado, ligou para os amigos mais chegados e os convidou para um almoço em sua casa. Queria matar as saudades, mas também aproveitar para mostrar as fotos da viagem e contar cada detalhe, é lógico. Terminada a refeição chamou todos para a sala e começou o slideshow, com a seleção das melhores imagens.

–         Essa praia aqui é… – nem mesmo terminou a frase e já foi interrompido.

–         Não é a de Boa Viagem? Muito bonito esse lugar. – perguntou afirmando um dos amigos

–         Essa mesmo. Maravilhoso lá. Essa outra praia é a de…. – era a segunda vez.

–         Porto de Galinhas? – certo novamente.

–         Exato. Essa foto eu tirei junto com um vendedor de côcos muito famoso, o… – como era possível? Sua empolgação decrescia cada vez mais.

–         Deve ser aquele Wandinho do Côco. – 100% de acerto.

Ao longo da exibição das fotos restantes a mesma situação se repetia. Quando um não sabia era quase certo que o outro tinha o final de cada frase na ponta de língua. Ele não queria mais mostrar nenhuma imagem, estava ficando indignado com aquela falta de respeito. Resolveu partir para os vídeos.

–      Essa noite foi insana. Vocês não vão acreditar, mas eu…

–         Ahh! Foi o dia que você dançou em cima do palco??

–         É… Porra até isso vocês sabem? Como assim?

–         Eu entrei no seu Orkut ontem de noite e avisei todo mundo que estava online que você tinha colocado as fotos da viagem. Eu não estava fazendo nada mesmo, resolvi ficar xeretando.

–         Deixa eu mostrar essas fotos que eu não postei então.

–         Ahh, nem precisa mostrar, já vimos bastante. E além da viagem o que mais de novo?

–         Ah, fora a viagem, não tem muita novidade não.

–         ….

–         ….

–         Que calor hein! Estava quente assim lá?

–         Teve um dia que fez…

–         Ah é! Aquele dia em São Luís a temperatura chegou a 42 graus! Lembrei daquela foto que você tirou do termômetro de rua! Não acreditei quando vi. Achei que era montagem!!

–         Ah é… Você viu… lógico…


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Mais amor do que sombra…

novembro 3, 2009
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Por Luiza Calegari

“Esta é a história de uma mulher e de um homem que se amaram plenamente, salvando-se assim de uma existência vulgar. Eu a levei na memória conservando-a para que o tempo não a desgastasse e é só agora, nas noites silenciosas deste lugar, que finalmente posso contá-la. Eu o farei por eles e por outros que me confiaram suas vidas dizendo: toma, escreve, para que o vento não o apague”.
(Isabel Allende)

Esta epígrafe não podia ser mais significativa. O romance De amor e de sombra (Difel, 1984 – 303 págs) é o segundo da carreira de Isabel Allende, escritora de nacionalidade chilena, filha de diplomata e sobrinha de ninguém menos que o presidente Salvador Allende, morto no golpe militar que levou o ditador Augusto Pinochet ao poder no Chile.

A história de golpe militar e o subsequente período de ditadura é um marco na vida de Isabel Allende, que foi obrigada a se asilar na Venezuela, e uma característica muito forte em vários de seus romances. Embora nenhum deles seja espacialmente localizado em um país específico, a situação política da ditadura pode ser atribuída a qualquer país latinoamericano na década de 80.

O fio condutor da narrativa é o romance entre Irene Beltrán e Francisco Leal. Mas a autora, sabiamente, enfoca de maneira tão envolvente as histórias paralelas na trama, que o leitor se sente transportado à realidade fantástica de Allende. Às trevas do período ditatorial e dos abusos militares, são contrastadas a sensibilidade e a paixão que costumam brotar e se exacerbar em meio às trevas.

E, apesar do cenário sombrio e das descrições grotescas que permeiam a obra, a mensagem que se fixa é de amor e esperança. Não havia como esperar algo diferente do livro cuja tour de divulgação levou a autora a conhecer seu segundo marido, fã confesso de sua obra literária. E nem havia como esperar algo diferente da autora que começou a escrever ficção por aconselhamento de ninguém menos que Pablo Neruda.


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Enfim, aqui estamos!

setembro 29, 2009
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Pois é, cá estamos! Primeira edição, primeiros textos, e primeiros leitores. Minutos depois de ler os primeiros posts encaminhados ao meu e-mail, surgiu a dúvida: o que eu gostaria que os primeiros blogueiros que aqui viessem soubessem sobre nosso blog?


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Blog da turma 4º ano de Jornalismo matutino, da Universidade Estadual de Londrina - UEL

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