Linhas Digitais

Finlândia: ponta de lança na democratização da comunicação? | novembro 20, 2009

Por Auber Silva

Recentemente o governo finlandês aprovou uma lei que garantirá, para cada cidadão finlandês, o direito de acesso à internet banda larga. Inicialmente, está previsto que em 2010 cada habitante poderá desfrutar de uma conexão gratuita com taxa de transferência de 1mb por segundo. A meta estabelecida pelas autoridades do país escandinavo é ainda mais ambiciosa: em 2015 os 5.5 milhões de finlandeses deverão ter acesso a uma internet banda larga de 100mb por segundo. O objetivo da lei, segundo o Ministério dos Transportes e Comunicações, é promover – com o auxílio da internet rápida – um aumento de produtividade em todas as áreas do país, resultando assim em melhores condições para competição no mercado global. Além disso, os autores do projeto entendem que assim como o direito de expressão, o sui generis “direito de conectividade total” deve ser preservado constitucionalmente para garantir o livre acesso da população à informação.

Em meio aos avanços tresloucados das ferramentas e técnicas de comunicação, esta notícia serve para nos alertar de forma providencial de que precisamos urgentemente pensar, antes das técnicas, o caráter normativo da comunicação. Na onda tecnológica, preocupamo-nos cada vez mais com as novas possibilidades que os equipamentos de última geração nos apresentam a cada semana. Porém, é mais comum discutirmos sobre as configurações técnicas destas ferramentas do que sobre como usar estas ferramentas e, até mesmo, a real necessidade destes produtos.

A resolução finlandesa – de certa forma uma aula sobre visão de futuro – nos leva aos questionamentos levantados pelo sociólogo francês Dominique Wolton. Em seu livro “É preciso salvar a comunicação”, o pensador defende que a comunicação – por ocupar o cerne de todas as relações sociais da vida contemporânea – é um valor tão importante quanto a tríade humanista “liberdade, igualdade e fraternidade” na busca do fortalecimento da democracia. “Salvar a comunicação é antes de tudo preservar sua dimensão humanista: o essencial da comunicação não está do lado das técnicas, dos usos ou dos mercados, mas do lado da capacidade de ligar ferramentas cada vez mais performáticas a valores democráticos, como se viu com o imenso movimento de solidariedade mundial por ocasião do Tsunami de dezembro de 2004 no sudeste asiático”, exemplifica.

A troca de informações, opiniões, visões de mundo e valores culturais é que são essenciais para a construção de um mundo conectado em que as diferenças serão vistas e, principalmente, compreendidas pelo outro. Hoje, conhecemos a pluralidade cultural que habita o nosso planeta. Conhecemos e estamos próximos uns dos outros graças aos avanços das tecnologias de telecomunicações, mas ainda ressentimos de desenvolvimentos no campo social, político e cultural, já que não conseguimos respeitar e coabitar com este “outro”.

Quem sabe este passo pioneiro dado pela Finlândia não nos mostre que o caminho, após desenvolvidas à  excelência as técnicas, seja a valorização do homem como mestre da ferramenta, e não o contrário. Deste modo, talvez a humanidade poderá compreender as suas diferentes faces sem iniciar, vez ou outra, movimentos antropofágicos originados no preconceito e na ignorância – duas palavras inconcebíveis em tempos de profusão da comunicação e encurtamento das distâncias.

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Publicado em Linhas Tortas

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Blog da turma 4º ano de Jornalismo matutino, da Universidade Estadual de Londrina - UEL

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